Ser

Cansada, carrega a sacola

Conforta-se, sentada no bonde

Suspira, sendo levada pelos pensamentos

Esposa Ana, mãe Ana, mulher Ana, gente Ana

 

Rotina constante, Ana esquecia-se de ser Ana

A vida a encoleirou, o dia a dia passava regular

Noite dia, dia noite, noite dia, dia noite

Lava, passa, cuida. Lava, passa, cuida.

 

Sem brilho, sem sujeira

Mediocridade por escolha dela

 

Na rua, agora um cego

Mascava e sorria

Contentando-se com o descontente

Parou de ser máquina

E pensou em virar gente

 

Adentrando em sua vida

Como visitante e observadora

Sainda da cama

E dando conta de seu estado

 

Podia parar de ser

Ou começar a ser

Confrontando sua própria realidade

Perdeu-se o sentido da existência

 

A hora perigosa chegava, passava conturbada

O momento em que Ana não era

Nem mãe, nem esposa e nem dona de casa

Era só ela, e ela não sabia ser

 

Ana abriu asas

Pensou em voar

Largar o automático

Seguir na descoberta do ser

Sair do chão e decolar a vida

 

Mas o pássaro

Nada carrega

Só voa quem é leve

Não podendo levar tudo que era

Ana deixou de ser mulher Ana

Para poder ser amor

 

Lídia Pedreira e Silva

(inspirada no conto Amor, de Clarice Lispector)

 

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