Briga com as palavras

Andando em cima da calçada, uma dessas muitas bem quebradas, deparei-me comigo caminhando. Sorri junto feito boba. Eram as raízes das velhas árvores, debochando da petulância do concreto. A massa escura e inerte desafiava o veio do verde, efêmero, mas hoje vivo.

Eu também brigo. Brigo com as palavras. Acho que medimos força.

Elas deitadas e eu em pé.

Elas me empurram, me pressionam para que eu caia, deite, me prostre.

Digo-as:

“vocês vão ver como vou conseguir, vou até o fim; vou lê-las todas primeiro, depois sim me deitarei, e derreterei em exausta satisfação, mas ainda não; vocês vão ver.”

Após um ponto (a vida que é toda cheia de pontos), fixo-me em uma delas, e digo mais:

“ai, pare, pare, preciso contar para alguém que talvez se interesse no  que você me disse. pare para eu não esquecer, vírgula alguma pode faltar. preciso dividir seu ser presente com alguém. você é tão maravilhosa!”

Mas elas não dão trégua, e continuam – a tagarelar; não, elas são desejáveis – a discursar; não, elas são instigantes – a esbravejar; não, elas são dóceis – a sussurrar, ah sim! elas são interessantes.

Uma delas, mais atrevida, vem e se exibe em nova Língua (na Italiana): “tutti” = tudo.

E nisso, olhe só para mim, já estou estupefata e abatida.

Perdi a briga. Rendo-me. Vocês palavras, são tutti lindas.

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