O dia dos embrulhos

_ Mas o que é isso? Levante-se daí. Como foi que você caiu? E por que não levanta logo, está feio você assim desse jeito. Parece mais um… atrapalhado.
Esbarrei com ele na esquina. Tinha muitos embrulhos, estavam todos encaixados em suas mãos, braços, abraços. A cada lugar que ia carregava-os consigo.
Não era só ele que tinha embrulhos, todos que conhecíamos tinham também.
Inventaram de marcar um dia onde todos deviam somá-los, enumerá-los.
Antonino era meio assim, parecido com muitos, acreditava no que diziam pelos ventos. E acreditou que esse dia existia.
Quanto mais próximo ia ficando desse dia, mais embrulhos juntava e socava para todo canto de si, ainda vazio.
Outro dia lhe perguntei o que havia dentro de tão valioso que não podia largar, deixar para depois buscar. Ele me contou que eram músicas, versos, fotos, palavras avulsas, alguns filmes, frases soltas e presas, nada demais…
_ Mas então, por que não os abre? Essa vida é curta, aproveite para usá-los.
Foi aí que ele me disse mais.
Disse que alguns têm uma beleza estonteante, no papel, no laço de fora, e assim não consegue abri-los.
Outros ele abre sim, e dá de presente, na esperança de ter traduzido o inefável, alguma vez.
Também têm aqueles que os guarda tão bem, que depois não encontra mais, mas lembra-se que eles existem, porque no momento que os envolvia, os apertava com os dedos, sentia-os com as próprias mãos.
Alguns outros perdidos, diz para si mesmo que quando precisar vai encontrá-los, mas sabe que tem medo de tê-los perdido de vez.
_ Mas não é demais tudo isso? Como consegue carregá-los?
_ Nem eu sei, acho que nasci com braços a mais.
_ Mas ninguém nasce assim, sempre há um começo.
Ofereci ajuda a Antonino, mas ele não quis. Sussurrou sua trilha insana: “o que os fazia ser embrulhos era seu tato”. Se neles não tocasse não existiriam mais, só faziam sentido para ele, e continuava: “queria envelhecer com ternura”.
Quando o dia marcado chegava, nem ele, nem eu, nem todos os possuidores de embrulhos explicam, mas todos se esqueciam de fazer as contas, e os esmiuçavam em lágrimas, que viravam lago. E no lago uns mergulhavam, uns nadavam, uns admiravam.
Antonino agora, além de carregar, ainda sente embrulhos. Se você o encontrar, pode chegar perto, bem perto, mas não tente carregá-los, espere que os dê; senão podem sumir e talvez, até ele mesmo.
Gerusa Pedreira e Silva

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