Pegando a Própria Sombra

Helena Maria. E fazia o M com quinas bem definidas, acompanhando o H desenhado grande, maior. Assinava as receitas para seus pacientes, usando seus dedos ágeis, fixando olhos nos olhos. O branco do papel era visto de relance apenas para conferência da data.

Quatro horas por noite eram suficiente para repor-lhe a energia. Após ouvir as três badaladas do sino da capela, Helena abria os olhos, esticava seus pés, contorcia-se na cama despindo-se da preguiça, apoiava-se com uma mão para se levantar enquanto a outra já trazia o celular para ter certeza que não estava atrasada.

À mesa os livros para estudo haviam sido selecionados no dia anterior. Num único movimento abria as cortinas brancas, para que ao nascer do sol ela começasse a se arrumar. Logo cedo os familiares dos cardíacos internados na UTI do Hospital das Clínicas esperavam-lhe para saber a situação de cada vida que estava por um fio.

Bla,bla,bla…bla,bla,bla. Dá pra ser mais rápido ? Vá direto ao ponto, sem tanta descrição, afinal essa história é minha. Não faço apenas relatórios.

Para cada rosto preocupado, Helena compunha-se na brancura de seu uniforme, na postura de quem sabe o que está fazendo. Nas horas mais difíceis em que precisava dar uma notícia indesejada e que sabia não seria bem aceita, as palavras de sua falecida mãe vinham-lhe à mente: ”você pode ser dona de si e de quem mais for, mas ninguém pode decidir o que fazer da sua vida.”

Em seus intervalos de plantão no Hospital costumava caminhar no jardim. Seguia a linha branca demarcada no chão por entre as árvores. Cruzou um dia com um rapaz também de branco, ele lhe fitou os olhos sem sorrir. Ela sentiu-se incomodada, mas seguiu seu caminho.

Ah… agora sim! Não vai dizer que quem olhou primeiro fui eu? Aliás, ele só me viu porque eu o fitei primeiro. Foi meu olhar que chamou sua atenção, e eu

No dia seguinte o mesmo aconteceu, e no outro e no outro. No quinto dia ela não o encontrou, mas procurou-o sem que ninguém percebesse, é claro. Às vezes ela o via, às vezes não. Começou a perceber que em todas as suas caminhadas algo diferente estava acontecendo, seu coração pulsava mais acelerado; até que resolveu pedir para uma colega examiná-la após o trabalho (sabia que um autoexame era o que todo bom médico nunca deveria fazer). Sua colega então lhe disse :

_ Você está ótima! Melhor nunca esteve. Sei o que está acontecendo …

_ Então diga logo.

_ Seu coração acelera, seu peito queima, sua boca fica seca.

_ É isso mesmo. O que tenho então ?

_Uma palavra só,

Helena Maria pegou sua bolsa, abaixou os olhos e saiu rapidamente, sem deixá-la terminar o diagnóstico.

Achou um banco vazio em seu conhecido jardim, e desmanchou-se como um algodão branco e doce derretendo entre os dedos.

À sua frente uma criancinha brincava com sua sombra, fazendo-a lembrar do filme de Peter Pan, que após algum esforço conseguiu pegar a própria sombra nas mãos, revivendo um daqueles desejos infantis indizíveis.

Foi para casa e fez tudo como queria, tudo como de costume.

Puxa! Até que enfim. Muito obrigada, agora está melhor … tudo como eu queria.

Na madrugada, quando o sino badalou três vezes ela acordou. Pensou nos olhos daquele rapaz e assistiu a uma cena dentro deles, era a sombra de Peter Pan escapando-lhe das mãos. Ciente de ser a protagonista de sua história, sabia que era hora de tomar uma decisão.

E assim ela o fez. Decidiu caminhar em outro jardim. Dona de si, ainda queria continuar.

Gerusa Pedreira e Silva

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