Incômodo acomodado

Creco apareceu não sei como, talvez tenha um porquê.
É que ele abrigava um hóspede, indesejado, escuro, nojento.
Creco sabia que não estava sozinho, apesar de ninguém enxergar nem ouvir. Às vezes sentia-se mais comprimido, precisando diminuir-se para outro ser ou não-ser, instalar-se ali, amigos de seu hóspede talvez. Às vezes uma água quente e mal cheirosa descia de cima. Às vezes uma água fria espirrava-lhe um frescor. Seus movimentos não eram seus. Mas ele sabia que vivia.
À sua volta e embaixo tudo era vermelho escuro, talvez um marrom bem forte. Em cima de si a claridade lhe era tapada pelo peso de seu intruso, incomodando mas costumeiramente acomodado. Era melhor que tudo continuasse assim, despercebido por todos.
Que pena, sem menos esperar foi descoberto, sem intenção alguma de chamar a atenção foi isso mesmo que seu hóspede fez. A culpa foi sua, o seu jeito tão gentil de cuidar do ser ou não-ser, fez-lhe crescer por demais! Incomodou agora, também o outro lá de fora.
Seu hóspede lhe foi extorquido, Creco mostrou sua cara, e agora sabia que amanhã não estaria mais ali.
Gerusa Pedreira e Silva

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